Tumor Urotelial de Rim e Ureter

TUMOR NO RIM: NEM TODO CÂNCER RENAL É IGUAL

** Veja as fotos e vídeo no final da página.

Quando uma tomografia identifica um tumor no rim, uma das primeiras perguntas é: de onde esse tumor se originou?

Dois cânceres podem estar muito próximos anatomicamente e, ainda assim, ter comportamento, cirurgia, tratamento complementar e acompanhamento completamente diferentes.

🔵 CARCINOMA DE CÉLULAS RENAIS

É o câncer que nasce no próprio tecido do rim. O subtipo mais frequente é o carcinoma de células claras.

Quando localizado, o tratamento é predominantemente cirúrgico.

Sempre que oncologicamente e tecnicamente possível, procuramos preservar o máximo de rim saudável através da nefrectomia parcial, retirando o tumor e preservando o restante do órgão.

Em tumores maiores, muito complexos ou avançados, pode ser necessária a nefrectomia radical, com retirada completa do rim.

🟠 CARCINOMA UROTELIAL DO TRATO URINÁRIO SUPERIOR

Aqui estamos falando de outra doença. E potencialmente mais grave e agressiva.

O tumor não nasce do tecido renal propriamente dito, mas do urotélio, o revestimento interno do sistema coletor do rim e do ureter.

É, portanto, biologicamente mais semelhante ao câncer de bexiga do que ao carcinoma de células renais.

E isso muda completamente a estratégia.

Nos tumores uroteliais de alto risco, a cirurgia padrão geralmente é a nefroureterectomia radical:

➡️ retirada do rim
➡️ retirada de todo o ureter
➡️ retirada do segmento da bexiga onde o ureter termina — o chamado cuff vesical

Essa diferença é fundamental.

Retirar somente o rim em um carcinoma urotelial de alto risco pode significar deixar para trás parte do trato urinário revestido pelo mesmo urotélio e comprometer os princípios oncológicos da cirurgia.

🔬 E TODOS OS TUMORES UROTELIAIS PRECISAM RETIRAR O RIM?

Não.

Tumores selecionados de baixo risco podem ser tratados preservando o rim, por exemplo através de ureteroscopia com tratamento endoscópico ou, em determinadas localizações, ressecção segmentar do ureter.

Mas essa estratégia exige seleção cuidadosa e um acompanhamento muito mais rigoroso, porque existe possibilidade de recorrência no trato urinário.

AGRESSIVIDADE E ESTADIAMENTO

Os dois tumores utilizam o sistema TNM, mas o significado anatômico da invasão é diferente.

No carcinoma de células renais, avaliamos fatores como tamanho do tumor, invasão da gordura ao redor do rim, veia renal, grandes vasos, linfonodos e metástases.

No carcinoma urotelial, são especialmente importantes o grau tumoral e a profundidade com que o tumor invade a parede do sistema coletor ou do ureter.

Tumores uroteliais de alto grau e invasivos podem apresentar comportamento bastante agressivo e risco significativo de disseminação.

💊 O TRATAMENTO DEPOIS DA CIRURGIA TAMBÉM É DIFERENTE

No carcinoma de células renais, determinados pacientes de alto risco podem ter indicação de tratamento sistêmico adjuvante, enquanto a maioria dos tumores localizados permanece em vigilância após a cirurgia.

No carcinoma urotelial de alto risco, a quimioterapia baseada em platina tem papel importante em pacientes selecionados, inclusive no cenário perioperatório.

Por isso, preservar função renal também pode ter impacto nas possibilidades de tratamento oncológico.

🔎 E O ACOMPANHAMENTO?

Também é diferente.

Após um carcinoma renal, o seguimento é direcionado principalmente para:

• rim remanescente
• leito cirúrgico
• linfonodos
• pulmões e outros locais potenciais de metástase.

No carcinoma urotelial, além do controle sistêmico, precisamos continuar observando todo o urotélio.

Isso pode incluir:

• tomografias
• exames de urina/citologia em situações selecionadas
• cistoscopias periódicas
• e, após tratamentos conservadores, avaliação endoscópica do trato urinário superior.

ONDE ENTRA A CIRURGIA ROBÓTICA?

A plataforma robótica pode ser especialmente útil quando precisamos realizar cirurgias reconstrutivas ou ressecções complexas com precisão.

No carcinoma de células renais, ela ampliou a possibilidade de realizar nefrectomias parciais minimamente invasivas, inclusive em tumores de maior complexidade, permitindo dissecação, ressecção tumoral e reconstrução renal com grande precisão.

No carcinoma urotelial, pode ser utilizada na nefroureterectomia radical, facilitando etapas delicadas como a dissecção do ureter distal e a retirada adequada do cuff vesical, além de reconstruções quando indicadas.

Mas existe um conceito ainda mais importante:

Robótica é uma via de acesso. O princípio oncológico continua sendo o mais importante.

A melhor cirurgia não é simplesmente aquela realizada com robô.

É aquela que combina indicação correta, técnica adequada, preservação de função quando possível e respeito à biologia de cada tumor.

Dois tumores. Duas biologias. Duas estratégias.

Tumor renal de células claras e carcinoma urotelial do rim/ureter podem surgir praticamente no mesmo órgão, mas não devem ser tratados como a mesma doença.

O diagnóstico correto antes da cirurgia pode mudar completamente o tratamento.

Foto abaixo do próprio autor.

Conteúdo de caráter informativo, não substitui consulta médica.

  • European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Upper Urinary Tract Urothelial Cell Carcinoma. EAU Guidelines Office, Arnhem, The Netherlands; 2026.
    EAU Guidelines – Upper Tract Urothelial Carcinoma

  • European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Renal Cell Carcinoma. EAU Guidelines Office, Arnhem, The Netherlands; 2026.
    EAU Guidelines – Renal Cell Carcinoma

  • Rouprêt M, Seisen T, Birtle AJ, et al. European Association of Urology Guidelines on Upper Urinary Tract Urothelial Carcinoma: 2023 Update. European Urology. 2023;84(1):49–64.

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