O Que É o Câncer de Próstata?
A próstata é uma glândula exclusivamente masculina, localizada abaixo da bexiga e à frente do reto. Ela faz parte do sistema reprodutor e tem o papel de produzir parte do líquido seminal.
O câncer de próstata ocorre quando células dessa glândula começam a crescer de forma descontrolada. É o tipo de câncer mais frequente entre os homens brasileiros, perdendo apenas para o câncer de pele não melanoma. Em muitos casos, o tumor cresce lentamente e pode ser tratado com excelentes resultados, especialmente quando detectado cedo.
A boa notícia: quando diagnosticado em estágios iniciais, o câncer de próstata tem chances muito altas de cura.
Por Que o Rastreamento É Tão Importante?
Na fase inicial, o câncer de próstata quase nunca apresenta sintomas. Por isso, aguardar o aparecimento de sinais para procurar um médico pode significar um diagnóstico tardio, quando o tratamento é mais complexo e o prognóstico menos favorável.
O rastreamento permite encontrar o tumor antes que ele dê qualquer sinal, quando as chances de cura são maiores e os tratamentos mais simples.
Quem Deve Fazer o Rastreamento?
Todos os homens - A partir dos 50 anos.
Homens negros ou com histórico familiar de 1º grau - A partir dos 40–45 anos.
Homens com múltiplos familiares afetados - Avaliação individualizada com urologista.
Como É Feito o Diagnóstico?
O diagnóstico do câncer de próstata envolve uma combinação de exames clínicos e laboratoriais.
Nenhum exame isolado é suficiente, é a avaliação conjunta que orienta a conduta médica.
1. PSA (Antígeno Prostático Específico)
Exame de sangue simples que mede a concentração de uma proteína produzida pela próstata. Valores elevados podem indicar câncer, mas também inflamação ou aumento benigno da glândula. Por isso, o resultado deve sempre ser interpretado pelo médico.
2. Toque Retal
Exame rápido e indolor que permite ao urologista avaliar o tamanho, consistência e textura da próstata. Apesar de ser simples, é fundamental, alguns tumores têm PSA normal mas são palpáveis ao toque.
3. Ressonância Magnética Multiparamétrica (mpMRI)
Exame de imagem de alta precisão que identifica áreas suspeitas dentro da próstata. É utilizado antes da biópsia para guiar com mais segurança o procedimento e evitar biópsias desnecessárias.
4. Biópsia de Próstata
Quando há suspeita clínica, realiza-se a biópsia, coleta de pequenos fragmentos de tecido prostático para análise anatomopatológica. É o único exame que confirma ou descarta definitivamente o câncer. Pode ser guiada por ultrassonografia transretal ou por fusão com ressonância magnética.
5. Estadiamento
Após o diagnóstico confirmado, exames complementares (cintilografia óssea, tomografia, PET-scan com PSMA) avaliam se o tumor está localizado na próstata ou se há disseminação para outros órgãos.
Opções de Tratamento
O tratamento do câncer de próstata é altamente individualizado. A decisão leva em conta o estadiamento do tumor, a agressividade (escore de Gleason), a idade, as condições de saúde e os objetivos do paciente.
1. Vigilância Ativa
Para tumores de baixo risco e crescimento lento, pode-se optar por monitorar o tumor com exames regulares, adiando o tratamento sem comprometer a cura. É uma opção segura e bem estabelecida para casos selecionados.
2. Cirurgia (Prostatectomia Radical)
Remoção cirúrgica completa da próstata e das vesículas seminais. É considerada o tratamento padrão-ouro para tumores localizados. Pode ser realizada por diferentes técnicas (veja abaixo).
3. Radioterapia
Uso de radiação de alta energia para destruir as células tumorais. Pode ser externa (IMRT, SBRT) ou interna (braquiterapia). É uma alternativa eficaz à cirurgia em muitos casos.
4. Hormonioterapia (Terapia de Privação Androgênica – TPA)
Reduz os níveis de testosterona, hormônio que alimenta o crescimento do tumor. Usada isolada ou combinada à radioterapia, especialmente em tumores localmente avançados ou metastáticos.
5. Quimioterapia
Reservada principalmente para casos avançados ou resistentes à hormonioterapia. Utiliza medicamentos que atacam células em divisão rápida.
6. Terapias Focais
Técnicas que tratam apenas a área afetada da próstata, preservando ao máximo o tecido saudável. Exemplos: HIFU (ultrassom focalizado de alta intensidade) e crioterapia. Ainda em expansão no Brasil.
Quando a Cirurgia É Indicada?
A prostatectomia radical é geralmente indicada quando:
O tumor está localizado na próstata (estágios T1 e T2, às vezes T3a)
O paciente tem expectativa de vida superior a 10 anos
As condições clínicas permitem a realização de anestesia e cirurgia
O paciente prefere uma abordagem definitiva com remoção completa do tumor
A cirurgia também pode ser indicada em casos selecionados de tumores localmente avançados, associada ou não a outros tratamentos.
Modalidades Cirúrgicas: Quais São as Diferenças?
Existem três formas principais de realizar a prostatectomia radical.
A escolha depende da experiência do cirurgião, das características do tumor e da infraestrutura disponível.
Cirurgia Robótica (Laparoscopia Robô-Assistida)
Considerada atualmente a técnica mais avançada. O cirurgião opera com precisão milimétrica por meio de braços robóticos, visualizando a anatomia em 3D e com grande aumento. Oferece:
Menor sangramento e dor pós-operatória
Recuperação mais rápida
Melhor preservação dos nervos responsáveis pela continência urinária e função erétil
Incisões mínimas (pequenos furos no abdome)
Cirurgia Laparoscópica Convencional
Também minimamente invasiva, realizada com câmera e instrumentos por pequenas incisões. Resultados similares à robótica em mãos experientes, com menor custo.
Cirurgia Aberta (Retropúbica)
Técnica tradicional, realizada por uma incisão no baixo ventre. Ainda amplamente utilizada e com excelentes resultados quando realizada por cirurgiões experientes. Pode ser preferida em situações anatômicas específicas.
Cuidados Após a Cirurgia: O Que Esperar na Recuperação?
A recuperação após a prostatectomia radical varia conforme a técnica utilizada e as características individuais de cada paciente. Abaixo, as orientações gerais mais importantes.
🏠 Nos Primeiros Dias em Casa
Repouso relativo: evite esforços físicos intensos, agachamentos e levantamento de peso por pelo menos 4 a 6 semanas
Sonda vesical: você retornará para casa com uma sonda urinária (cateter de Foley), que normalmente é retirada entre 7 e 14 dias após a cirurgia, conforme orientação do seu médico
Alimentação: prefira alimentos leves, ricos em fibras, para evitar constipação intestinal. Beba bastante água
Movimentação: caminhe levemente dentro de casa desde o primeiro dia, isso ajuda a prevenir trombose e melhora a circulação
Higiene: tome banho normalmente, protegendo o curativo conforme orientação
🚶 Nas Primeiras Semanas
Evite dirigir enquanto estiver com a sonda ou em uso de analgésicos
Não suba escadas em excesso; suba devagar e segure-se no corrimão
Não pratique relações sexuais até liberação médica
Não mergulhe em piscinas, banheiras ou mar até cicatrização completa
Compareça a todas as consultas de retorno agendadas
💊 Medicações
Tome todos os medicamentos prescritos no horário correto. Não interrompa o uso de anticoagulantes (se prescritos) sem orientação médica.
Passo a Passo: Como Fazer o Curativo em Casa
Após a cirurgia, você terá pequenas incisões ou um corte no abdome inferior que precisam de cuidado diário. Siga este protocolo:
O Que Você Vai Precisar
Gaze estéril
Esparadrapo ou micropore
Soro fisiológico 0,9% (pode ser adquirido em farmácias)
Luvas descartáveis (recomendado)
Passo a Passo
1. Lave as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos antes de tocar no curativo.
2. Retire o curativo antigo com cuidado, de cima para baixo, sem arrancar bruscamente. Se estiver aderido, umedeça levemente com soro fisiológico.
3. Observe o ferimento:
Pequena vermelhidão ao redor da incisão nos primeiros dias é normal
Secreção clara ou levemente amarelada em pequena quantidade pode ser normal
Alerte-se para: secreção com mau cheiro, pus, vermelhidão intensa ou abertura da ferida (veja os sinais de alerta abaixo)
4. Limpe a ferida com gaze umedecida em soro fisiológico, sempre em movimentos de dentro para fora (do centro da incisão para as bordas). Nunca use algodão diretamente sobre a ferida.
5. Seque suavemente com gaze seca.
6. Cubra com gaze estéril e fixe com micropore ou esparadrapo.
7. Descarte o material usado em saco plástico fechado.
🔁 Frequência: troque o curativo 1 vez ao dia ou sempre que estiver úmido ou sujo. Após o banho, aguarde secar bem antes de aplicar o novo curativo.
⚠️ Sinais de Alerta:
Não hesite em buscar ajuda médica se apresentar qualquer um dos seguintes sinais:
Febre acima de 38°C.
Secreção purulenta, com odor ou em grande quantidadeInfecção na ferida cirúrgica.
Inchaço, vermelhidão ou calor intenso na feridaInfecção local ou hematoma.
Abertura da ferida cirúrgica - Deiscência, necessita avaliação urgente.
Sangramento urinário intenso ou coágulos.
Sonda obstruída (sem saída de urina por mais de 2h).
Obstrução do cateter, ligue para seu médico.
Dor intensa e não controlada com medicação.
Falta de ar, dor no peito ou inchaço na perna - Possível trombose ou embolia, urgência.
Em caso de dúvida, entre em contato com a equipe médica. Não espere.
Recuperação a Longo Prazo: Continência e Função Sexual
Dois aspectos importantes após a prostatectomia merecem atenção especial:
Incontinência Urinária
É comum apresentar perda de urina após a retirada da sonda, desde pequenos escapes ao esforço até perda mais significativa. Em grande parte dos casos, melhora progressivamente nos primeiros 3 a 12 meses com:
Exercícios de Kegel (contração do assoalho pélvico), iniciados ainda no período pré-operatório quando possível
Fisioterapia uroginecológica especializada
Ajuste na ingestão de líquidos e hábitos miccionais
Função Erétil
A preservação da ereção depende de fatores como a técnica cirúrgica (preservação dos feixes neurovasculares), a função erétil prévia e a idade do paciente. A reabilitação peniana precoce, com orientação médica, melhora significativamente os resultados.
Converse abertamente com seu urologista sobre essas questões antes da cirurgia. Saber o que esperar facilita muito a recuperação.
Cuidados Especiais com a Sonda Vesical (Cateter de Foley) no pós operatório
A sonda vesical é um dos itens mais importantes da recuperação após a prostatectomia radical. Ela mantém a bexiga drenada continuamente enquanto ocorre a cicatrização da ligação entre a bexiga e a uretra (anastomose). Alguns cuidados simples ajudam a evitar complicações.
É normal sentir vontade de urinar?
Sim. Mesmo com a sonda funcionando perfeitamente, muitos pacientes relatam sensação de bexiga cheia ou vontade frequente de urinar. Isso acontece porque a bexiga pode apresentar pequenos espasmos durante o processo de cicatrização.
Essa sensação geralmente melhora espontaneamente e não significa que a sonda esteja entupida.
É normal a urina vazar ao redor da sonda?
Sim. Pequenos vazamentos de urina ao redor da sonda podem ocorrer, principalmente durante espasmos da bexiga ou quando o paciente faz esforço para evacuar, tossir ou levantar. Na maioria das vezes isso não significa que a sonda saiu do lugar.
Posso dormir de lado?
Pode. Você pode dormir de barriga para cima ou de lado, desde que a mangueira da sonda não fique dobrada ou comprimida. Evite deitar sobre a própria bolsa coletora.
Como prender a sonda na perna?
Sempre mantenha a sonda fixada na coxa com a fita fornecida pelo hospital ou outro dispositivo apropriado. Essa fixação evita tração sobre a uretra, reduz a dor e diminui o risco de sangramento. Evite deixar a sonda "pendurada", pois seu peso pode causar desconforto.
Posso tomar banho normalmente?
Sim. O banho de chuveiro está liberado. Lave delicadamente o pênis e a região onde a sonda entra na uretra apenas com água e sabonete neutro. Não é necessário utilizar álcool, clorexidina ou outros antissépticos.
Posso desconectar a bolsa coletora?
Não. A bolsa coletora deve permanecer conectada continuamente. Desconectar a sonda aumenta significativamente o risco de infecção urinária.
A bolsa deve ficar cheia?
Não. Esvazie a bolsa quando atingir aproximadamente metade ou dois terços da capacidade. Isso evita refluxo de urina e reduz o peso sobre a sonda.
Posso caminhar?
Sim. Na verdade, caminhar é altamente recomendado. Caminhadas curtas várias vezes ao dia diminuem o risco de trombose, melhoram o funcionamento do intestino e aceleram a recuperação. Leve sempre a bolsa coletora abaixo do nível da bexiga.
Posso subir escadas?
Sim. Suba lentamente, segurando no corrimão. Nos primeiros dias evite subir e descer escadas repetidamente.
E se a urina parar de sair?
Primeiro verifique se:
a mangueira está dobrada;
você está sentado sobre a sonda;
a bolsa está acima da bexiga.
Se tudo estiver correto e a urina não voltar a drenar em até 1 ou 2 horas, principalmente se houver dor ou sensação de bexiga cheia, entre em contato imediatamente com sua equipe médica.
O que acontece se a sonda sair acidentalmente?
Nunca tente recolocá-la. A recolocação inadequada pode lesar a anastomose realizada durante a cirurgia. Procure imediatamente o hospital ou entre em contato com seu cirurgião.
É normal aparecer sangue após caminhar?
Sim. Após caminhadas mais longas, evacuação ou maior atividade física, é relativamente comum que a urina fique mais avermelhada. Normalmente isso melhora com repouso e aumento da ingestão de líquidos. Caso o sangramento seja intenso, persistente ou acompanhado de grandes coágulos, procure atendimento médico.
Como evitar que a sonda entupa?
Beba bastante água (salvo contraindicação médica).
Evite dobras na mangueira.
Não faça tração da sonda.
Esvazie regularmente a bolsa coletora.
Posso viajar de carro?
Viagens curtas são permitidas quando liberadas pelo médico.
Em trajetos mais longos:
faça paradas para caminhar;
mantenha a bolsa abaixo da bexiga;
evite que a mangueira fique comprimida pelo cinto de segurança.
Posso evacuar normalmente?
Sim. Não tenha receio de evacuar. O importante é não fazer força excessiva. Caso apresente prisão de ventre, utilize as medicações prescritas pelo seu médico e mantenha boa hidratação.
Para te tranquilizar:
Situações bastante comum no pós-operatório:
✔ Pequena quantidade de sangue na urina.
✔ Urina rosada pela manhã.
✔ Pequenos coágulos finos.
✔ Ardor na ponta do pênis.
✔ Dor leve ao sentar.
✔ Vontade frequente de urinar com a sonda.
✔ Pequeno vazamento de urina ao redor da sonda.
✔ Pequena secreção amarelada ao redor do meato uretral.
✔ Desconforto quando a bolsa fica muito cheia.
Perguntas Frequentes
O câncer de próstata tem cura?
Sim. Quando diagnosticado em estágio localizado, as taxas de cura com cirurgia ou radioterapia são superiores a 90%.
O PSA alto significa que tenho câncer?
Não necessariamente. O PSA pode estar elevado por inflamação (prostatite), aumento benigno da próstata (hiperplasia) ou outros fatores. Apenas a biópsia confirma o diagnóstico.
A cirurgia robótica é sempre melhor?
É uma técnica avançada com vantagens bem documentadas, mas o resultado depende fundamentalmente da experiência do cirurgião. Converse com seu médico sobre a opção disponível em seu caso.
Vou usar fralda depois da cirurgia?
Muitos pacientes precisam de absorventes ou protetor urinário nos primeiros meses. A maioria recupera a continência completa ao longo do tempo com reabilitação adequada.
Quando posso voltar a trabalhar?
Depende da natureza do trabalho. Atividades de escritório: em geral entre 2 e 4 semanas. Trabalhos físicos: 6 a 8 semanas ou conforme orientação médica.
Esta página tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não substitui a consulta médica individualizada. Procure sempre um profissional de saúde habilitado para avaliação e orientação do seu caso específico.
Dr. Mauro Gasparoni, Urologista
Especialista em Uro-Oncologia e Cirurgia Robótica da Próstata




