Cistos Renais

Os cistos renais são pequenas bolsas contendo líquido que se desenvolvem no interior ou na superfície dos rins. São extremamente comuns, principalmente com o avanço da idade, e na grande maioria das vezes representam alterações benignas, descobertas por acaso durante uma ultrassonografia, tomografia ou ressonância realizada por outro motivo.

Receber em um exame o diagnóstico de “cisto no rim” costuma gerar preocupação, principalmente pelo receio de câncer. Entretanto, é importante entender que a presença de um cisto renal não significa câncer. O mais importante é avaliar suas características nos exames de imagem para diferenciar um cisto simples de uma lesão cística mais complexa.

Cisto renal simples

O cisto renal simples possui paredes finas e regulares e conteúdo líquido homogêneo, sem componentes sólidos suspeitos. Na maioria das pessoas, não provoca sintomas, não interfere no funcionamento dos rins e não necessita de tratamento.

Alguns cistos podem atingir grandes dimensões e, ainda assim, permanecer benignos. Portanto, o tamanho isoladamente não determina se um cisto é maligno.

Quando muito volumosos, entretanto, podem provocar desconforto, sensação de peso ou dor na região lombar ou abdominal. Mais raramente podem ocorrer sangramento, infecção ou compressão de estruturas próximas.

O que é a classificação de Bosniak?

Quando um cisto apresenta características mais complexas, como septos, espessamento da parede, calcificações, nódulos ou áreas que captam contraste, é necessário estudá-lo com maior atenção.

Para isso utilizamos a classificação de Bosniak, atualmente em sua versão atualizada de 2019. Ela utiliza principalmente características encontradas na tomografia computadorizada ou ressonância magnética para estimar a probabilidade de uma massa renal cística representar um tumor maligno.

As lesões são divididas em categorias Bosniak I, II, IIF, III e IV.

Os cistos Bosniak I e II são considerados benignos e geralmente não necessitam de acompanhamento específico. Já a categoria Bosniak IIF representa lesões provavelmente benignas, mas com algumas características que justificam acompanhamento periódico por exames de imagem.

As lesões Bosniak III apresentam maior grau de complexidade e uma probabilidade significativamente maior de malignidade. Já uma lesão Bosniak IV, principalmente pela presença de componentes nodulares que captam contraste, apresenta elevada probabilidade de representar um tumor renal.

Isso não significa que todo Bosniak III obrigatoriamente seja câncer ou que todos os pacientes precisem imediatamente de cirurgia. Atualmente, tamanho da lesão, características radiológicas, idade, condições clínicas e preferência do paciente também fazem parte da decisão.

Quando um cisto renal precisa ser tratado?

Um cisto simples que não provoca sintomas geralmente não precisa de nenhum tratamento.

Nos cistos benignos muito volumosos e sintomáticos, o tratamento pode ser considerado quando existe dor, compressão de estruturas próximas ou outras complicações. Dependendo da situação, existem diferentes possibilidades terapêuticas.

Uma delas é a punção e drenagem do cisto associada à escleroterapia. Em outros casos, pode ser indicada a marsupialização ou decorticação do cisto por cirurgia laparoscópica ou robótica, retirando parte de sua parede para evitar que volte a acumular líquido.

A situação é diferente quando estamos diante de uma massa renal cística com suspeita de câncer.

Nesses casos, quando existe indicação cirúrgica, sempre que tecnicamente e oncologicamente possível buscamos preservar o máximo de tecido renal saudável através da nefrectomia parcial, retirando a lesão e preservando o restante do rim.

Qual é o papel da cirurgia robótica?

A cirurgia robótica possui papel particularmente importante quando é necessária uma nefrectomia parcial, especialmente em lesões localizadas em regiões de maior complexidade anatômica.

A visão tridimensional ampliada e os instrumentos articulados auxiliam o cirurgião na dissecção, retirada precisa da lesão e reconstrução do rim, permitindo realizar procedimentos complexos por uma abordagem minimamente invasiva.

Entretanto, a indicação da cirurgia não é determinada simplesmente pela disponibilidade do robô. O objetivo principal continua sendo realizar um tratamento oncologicamente seguro e, sempre que possível, preservar a função renal.

Todo cisto precisa ser acompanhado?

Não.

Um cisto renal simples adequadamente caracterizado geralmente não exige acompanhamento urológico periódico apenas por sua presença.

As lesões Bosniak IIF, por outro lado, necessitam acompanhamento por exames de imagem para verificar se permanecem estáveis ou se apresentam mudanças em suas características.

Nos Bosniak III e IV, a estratégia é individualizada. Dependendo das características da lesão e do paciente, podem ser considerados cirurgia ou, em situações selecionadas, protocolos de vigilância ativa.

Cisto renal pode virar câncer?

Essa é uma dúvida muito frequente.

De maneira geral, não devemos imaginar que um cisto renal simples vai progressivamente “se transformar” em câncer. O objetivo dos exames de imagem é justamente reconhecer desde o início características que indiquem que aquela lesão não é um simples cisto, mas uma massa renal cística que merece investigação ou acompanhamento específico.

Por isso, mais importante do que saber apenas o tamanho do cisto é conhecer sua aparência, classificação de Bosniak e comportamento ao longo do tempo.

Em resumo

A maioria dos cistos renais é benigna e não necessita de tratamento. Quando uma lesão apresenta características complexas, a classificação de Bosniak ajuda a estimar seu risco e orientar a necessidade de acompanhamento ou tratamento.

Cada situação deve ser avaliada individualmente. O objetivo é evitar tanto cirurgias desnecessárias para lesões benignas quanto atrasos no diagnóstico e tratamento de uma massa renal cística potencialmente maligna.

Cistos renais têm relação com alimentação?

Na grande maioria dos casos, não existe uma dieta específica capaz de prevenir, diminuir ou fazer desaparecer um cisto renal simples.

O aparecimento dos cistos renais simples está muito mais relacionado ao envelhecimento e a alterações naturais do próprio rim do que ao consumo de determinado alimento.

Portanto, quem possui um cisto renal simples não precisa deixar de consumir café, leite, carne, refrigerantes ou outros alimentos apenas por causa do cisto.

Também não existem chás, suplementos ou medicamentos comprovadamente capazes de dissolver ou eliminar um cisto renal.

Manter uma alimentação equilibrada, controlar o peso, evitar excesso de sal, não fumar e controlar adequadamente a pressão arterial são medidas importantes para a saúde dos rins e cardiovascular como um todo, mas não constituem um tratamento específico para o cisto.

Cistos renais são hereditários?

Os cistos renais simples, que são extremamente frequentes na população adulta, geralmente não representam uma doença hereditária.

A situação é diferente quando existem múltiplos cistos nos dois rins, principalmente em pacientes mais jovens ou quando vários familiares apresentam doença renal semelhante.

Nessas situações, o médico pode investigar doenças genéticas específicas.

A mais conhecida é a doença renal policística autossômica dominante, uma condição hereditária caracterizada pelo desenvolvimento progressivo de numerosos cistos renais e que pode estar associada ao aumento do tamanho dos rins, hipertensão arterial e redução da função renal ao longo dos anos.

Existem também síndromes genéticas mais raras que podem estar associadas ao aparecimento de cistos e tumores renais.

Por isso, encontrar um ou poucos cistos simples em um adulto é muito diferente de apresentar uma doença renal policística.

Meus filhos precisam fazer exames?

Na presença apenas de cistos renais simples, normalmente não existe indicação de realizar ultrassonografia nos filhos ou outros familiares.

A investigação familiar pode ser considerada quando existe suspeita de uma doença hereditária, especialmente diante de múltiplos cistos bilaterais, doença renal em idade jovem ou histórico familiar significativo.

A decisão deve ser individualizada.

O ultrassom consegue diagnosticar um cisto renal?

Sim.

A ultrassonografia é excelente para identificar muitos cistos renais simples e frequentemente é o exame no qual o diagnóstico aparece pela primeira vez.

Um cisto simples apresenta características bastante típicas ao ultrassom: conteúdo líquido, parede fina e ausência de estruturas sólidas em seu interior.

Quando essas características são claramente demonstradas, muitas vezes não é necessário realizar exames mais complexos.

Entretanto, quando o cisto apresenta septos, paredes espessadas, calcificações, componentes internos ou qualquer característica duvidosa, pode ser necessário complementar a investigação.

Quando é necessária tomografia ou ressonância?

A tomografia computadorizada com contraste ou a ressonância magnética permitem analisar com maior detalhe as massas renais císticas.

Esses exames são especialmente importantes quando existe dúvida se estamos realmente diante de um cisto simples ou de uma lesão mais complexa.

Um dos aspectos mais importantes é verificar se determinadas estruturas dentro da lesão apresentam realce após a administração do contraste. Essa informação ajuda na classificação de Bosniak e na estimativa do risco de malignidade.

Em determinadas situações, a ressonância pode fornecer informações adicionais quando a tomografia não consegue caracterizar adequadamente a lesão.

Posso acompanhar meu cisto somente com ultrassom?

Depende do tipo de cisto.

Um cisto inequivocamente simples geralmente não necessita de acompanhamento específico.

Nas massas císticas complexas, entretanto, a escolha do exame depende das características da lesão. Ultrassonografia, tomografia e ressonância não são necessariamente intercambiáveis.

Por isso, não é adequado decidir sozinho realizar “um ultrassom todo ano”. O primeiro passo é saber qual é exatamente a natureza da lesão encontrada.

Cisto renal pode aumentar de tamanho?

Sim.

Cistos renais benignos podem crescer lentamente ao longo dos anos.

Isso é importante porque crescimento não significa automaticamente câncer.

Um cisto simples pode aumentar bastante de tamanho e continuar apresentando características completamente benignas.

Nas massas císticas complexas, a avaliação não considera apenas o tamanho. Mudanças na parede, septos, nódulos e principalmente áreas que apresentam realce pelo contraste podem ser muito mais relevantes.

Um cisto grande precisa ser operado?

Não necessariamente.

O tamanho isoladamente não determina a necessidade de cirurgia.

Existem pacientes com cistos bastante volumosos que não apresentam sintomas e podem não necessitar de tratamento.

A intervenção costuma ser considerada quando o cisto provoca sintomas ou complicações, como dor persistente, compressão de estruturas próximas, infecção ou outras alterações relacionadas à sua localização.

Quando existe suspeita de malignidade, entretanto, a decisão passa a seguir princípios diferentes daqueles utilizados para um simples cisto benigno.

Cisto renal causa dor?

A maioria não causa.

Cistos maiores podem eventualmente provocar dor ou sensação de peso na região lombar ou abdominal devido ao seu volume e à compressão das estruturas próximas.

Entretanto, é importante não atribuir automaticamente qualquer dor lombar a um cisto encontrado no exame.

Dor lombar é extremamente comum e pode ter diversas causas musculares, ortopédicas, neurológicas e urinárias.

O urologista deve avaliar se existe realmente uma relação entre os sintomas e o cisto antes de indicar qualquer tratamento.

Cisto renal prejudica o funcionamento do rim?

Um cisto renal simples isolado geralmente não provoca insuficiência renal.

Mesmo cistos relativamente grandes podem coexistir com função renal normal.

Situações envolvendo numerosos cistos, doenças hereditárias ou compressões importantes exigem uma avaliação diferente.

Exames de sangue, especialmente a creatinina e a estimativa da taxa de filtração glomerular, ajudam a avaliar o funcionamento global dos rins.

Cisto renal pode estourar?

A ruptura espontânea de um cisto renal simples é possível, mas é incomum.

Também pode ocorrer sangramento dentro de um cisto, especialmente após traumatismos ou em determinadas circunstâncias clínicas.

Dor súbita intensa, sangue na urina, febre ou piora importante dos sintomas justificam avaliação médica.

Posso fazer academia e exercícios físicos?

Na maioria das pessoas com cistos renais simples, não existe necessidade de restringir atividade física ou musculação.

Pacientes com cistos muito volumosos, doenças renais policísticas ou situações específicas devem receber orientação individualizada, principalmente em relação a atividades com maior risco de trauma abdominal ou lombar.

Beber mais água diminui os cistos?

Não há evidência de que simplesmente aumentar o consumo de água faça um cisto renal simples diminuir ou desaparecer.

Uma hidratação adequada é importante para a saúde geral e para algumas outras condições urológicas, mas não é um tratamento para cistos renais.

A quantidade ideal de líquidos também varia entre as pessoas e pode precisar ser limitada em determinadas doenças cardíacas ou renais.

Existe medicamento para eliminar o cisto?

Para os cistos renais simples, não existe medicamento de uso rotineiro capaz de fazê-los desaparecer.

Também não existe tratamento caseiro comprovado para eliminar esses cistos.

Quando um cisto benigno realmente necessita de tratamento, existem procedimentos específicos, escolhidos conforme tamanho, localização, sintomas e características da lesão.

Qual é a principal mensagem para quem recebeu o diagnóstico?

Encontrar um cisto renal em um exame é extremamente comum e, na maioria das vezes, não representa câncer nem significa que será necessária uma cirurgia.

O ponto fundamental não é apenas perguntar:

“Qual é o tamanho do meu cisto?”

A pergunta mais importante é:

“Este é realmente um cisto simples ou apresenta alguma característica que exige investigação?”

A partir dessa resposta, podemos definir se não é necessário fazer nada, se existe indicação de acompanhamento ou se são necessários exames e tratamentos adicionais.

Referências bibliográficas

  1. Silverman SG, Pedrosa I, Ellis JH, et al. Bosniak Classification of Cystic Renal Masses, Version 2019: An Update Proposal and Needs Assessment. Radiology. 2019;292(2):475-488. doi:10.1148/radiol.2019182646.

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  3. European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Renal Cell Carcinoma – Diagnostic Evaluation: Bosniak Classification of Renal Cystic Masses. EAU Guidelines Office. A diretriz atual incorpora a classificação Bosniak 2019 na avaliação das massas renais císticas.

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